PESQUISAR

Sobre o Centro de Pesquisa
Sobre o Centro de Pesquisa
Residência Médica
Residência Médica
Somos humanos ou somos dentistas?
Compartilhar pelo Facebook Compartilhar pelo Twitter Compartilhar pelo Google Plus Compartilhar pelo WhatsApp
Somos humanos ou somos dentistas?

Somos humanos ou somos dentistas?

29/12/2015
  568   
  0
Compartilhar pelo Facebook Compartilhar pelo Twitter Compartilhar pelo Google Plus Compartilhar pelo WhatsApp

Happy group of kids

Are we human, or are we dentists? Esse é o título em inglês de um artigo publicado em outubro passado pela prestigiosa revista British Dental Journal. O periódico inglês relata as agruras dos profissionais de odontologia que trabalham com crianças e que muitas vezes passam por situações difíceis, decorrentes das condições bucais dessas crianças. Eu entendo bem o que eles querem dizer, passo por isso quase todo dia.

Quando fui para o último ano da faculdade conheci a Odontopediatria, descobri que se eu ensinasse as crianças, desde pequenas, elas teriam um mínimo de problemas bucais e que isso poderia perdurar por muitos anos na vida delas. Contudo, crianças não conseguem perceber a importância da saúde bucal, muito menos os malefícios causados pelas doenças bucais ao longo do tempo, por isso a educação deveria ser priorizada para os pais. Mas percebi, algum tempo depois, que existem mais preocupações na cabeça de muitos adultos e que o fio dental e a escova não eram prioridade.

Não tenho dúvidas do amor que os pais dedicam aos filhos, isso é uma discussão vã, a questão não é de amor o carinho, talvez seja de dedicação em excesso, de superproteção, de falta de tempo, de descompromisso com os bons costumes. Acontece que estamos no século XXI e a criançada ainda apresenta sérios problemas bucais, que seriam facilmente resolvidos com boa orientação. Claro que já melhorou muito, a fluoretação da água, cremes dentais com flúor, acessibilidade, com mais dentistas no mercado e uma maior consciência das famílias, mas ainda é pouco. Todo dia recebo crianças com cáries, necessidade de tratamentos de canal, e dentes cobertos de placa bacteriana. Não é possível que com toda informação circulante os responsáveis ainda ignorem as advertências dos dentistas em relação aos cuidados bucais.

A começar pela dieta, o consumo de alimentos açucarados só aumenta. Refrigerantes, bebidas a base de soja parecem que vieram para substituir a água. Tem coisa errada por aí. Pare e veja seu dia a dia, o que é mais fácil, abrir um pacotinho de salgadinhos ou lavar uma maçã e dar para a criança? É mais fácil abrir um potinho de iogurte petit suisse (e vocês sabem de quem estou falando) ou bater uma bela vitamina com mamão, maçã, banana e laranja no liquidificador, que por sinal é muito mais gostoso? A resposta está na lancheira das crianças.

Quem verdadeiramente convence o filhote a comer frutas, verduras e legumes diariamente. Outro dia um pacientezinho, com seus seis anos de idade, descreveu sua dieta: salsicha, batatinhas fritas, nuggets de frango e Coca-Cola. Olhei para a mãe e ela respondeu: “Doutor, ele só come isso, senão não come nada”. Quase fiquei sem respirar. Qual é o futuro desse menino?

Vamos para a higiene bucal. Quem está mesmo disposto a acordar o príncipe que dormiu no sofá e fazê-lo escovar os dentes e passar o fio dental? Outro dia uma mãe me disse que, como o filho já tinha sete anos ele poderia muito bem escovar os dentes sozinho. Claro que pode, como também pode cozinhar, pilotar a moto do pai, dirigir o carro da família e até assinar os cheques. Eu tenho filhos já crescidos, mas quando eles eram crianças pequenas a conversa lá em casa era outra. Sabe aquela de conferir a lição de casa, fazíamos isso sempre. Considero-me um cara bem aberto, democrático, mas como para criar filhos não existe manual, os meus rezavam da minha cartilha. Fazíamos papel de pais, simples assim. Ah, e não tinha essa de: “estou com sono, escovo amanhã”. Acredito que não desperdicei tempo com isso, pelo contrário, a Marina e o Lucas continuam me amando e com dentes lindos.

Outro quesito é levar a criança ao dentista, assim como para os médicos, essa pratica por vezes vem diminuindo. Não é à toa que os pronto-atendimentos de hospitais infantis vivem lotados. Prevenção, visitas de acompanhamento, que é bom, “tá difícil”. Nos consultórios dos dentistas também. Publiquei um post meses atrás sobre a frequência das crianças nos dentistas, posso até me considerar um privilegiado porque tenho retornos bastante regulares, mas existem pacientes que simplesmente somem do consultório por tempos, e quando voltam: “Meu Pai do Céu”. Não é matemática, mas quase, visitas regulares: boa condição bucal, visitas bissextas: cuidado que aí tem, e isso pode significar dor e infecção de dente.

Nessa hora retorno ao título do post: Somos humanos ou somos dentistas? Posso afirmar com convicção, sou dentista e por isso tento ser o mais profissional por isso, mas como humano sofro junto com as crianças e com os pais quando preciso fazer tratamentos mais radicais, algumas vezes até em hospital, para cuidar das crianças confiadas a mim. Mais profissional possível peço aos papais zelosos por seus tesouros, me deem um presente de Natal, para o Ano Novo: escovem os dentes e passem o fio dental na Turma da Bagunça.

E para não desconsiderar o apreço que tenho pela amizade de vocês, uma mensagem de Jesus, o Aniversariante do Mês: “Tudo o que a sua mão encontrar para fazer, faça-o com todo o seu coração”.

Bem, a todos que estiveram por aqui, durante o ano todo, me presenteando com seu apoio, mensagens e sorrisos, meu muito obrigado e um Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

assinatura-reynaldo-nova

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal (CRM-SP: 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo , com Especialização na Universidade de São Paulo (USP) e Pós Graduação em Gestão na UNIFESP. Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás e David.

deixe uma mensagem O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

posts relacionados

INICIATIVAS DA FUNDAÇÃO JOSÉ LUIZ EGYDIO SETÚBAL
Sabará Hospital Infantil
Pensi Pesquisa e Ensino em Saúde Infantil
Autismo e Realidade