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“Os filhos crescem. E não podemos impedir… Que pena!”
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“Os filhos crescem. E não podemos impedir… Que pena!”

“Os filhos crescem. E não podemos impedir… Que pena!”

13/10/2014
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leticia

Ver os filhos crescer não é fácil, sentimos que uma parte de nossa vida está indo embora. Uma hora eles serão adultos e isso nos assusta. Aqueles que eram tão dependentes, de repente, como num piscar de olhos, tornam-se independentes, donos de seus narizes, capazes de fazer tantas coisas sozinhos. Como viver isso?

Muitas mães (e aqui as coloco e não os pais, pois em nossa sociedade são as que acabam ficando com a maior parte do dia a dia da criança) o fazem de forma tranqüila, respeitando o desenvolvimento natural de seus filhos, mas muitas acabam por querer manter ainda neles traços incongruentes com sua idade. Talvez por isso observemos tantas mães infantilizando seus filhos. Ou seja, aquelas mães que ainda dão papinha em casa para crianças que na escola comem sanduíche; mães que se comunicam com elas chamando as coisas não pelo nome correto, mas pelo vocabulário de neném (papá, naninha…), isso com crianças que já falam fluentemente, e não com os pequenos que ainda não sabem se expressar; que não tiram a chupeta e a usam como “calaboca”, ou “calmante”, numa fase em que seus filhos já deviam ter largado-a; que as deixam fazer manha numa etapa que deveriam lhes estar ensinando limites.

É o caso daquelas que dão mamadeira para seu filho, grande, cheio de dentes, que vai para a escola, que desenha e tem total capacidade de comer sozinho, que bebe em copo e até já pega água no bebedor, numa idade em que esta já deveria estar aposentada. Aí ouvimos a velha desculpa: mas ele gosta! Ora, quem é que gosta, a criança ou a mãe? Quem decide? Será que não é sua mãe que prefere mantê-la regredida, na mamadeira? E mais, se a criança é quem manda, qual o papel dessa mãe? Basta então deixá-la decidindo tudo e viver à sua mercê. Estas mães acabam por dar duas mensagens, a de que seu filho é grande para certas coisas, mas continua bebê. Em outras palavras é criança grande, mas neném ao mesmo tempo. Que confusão. Para ambos! Inconscientemente, sem perceber, estas mães ficam mantendo seus filhos em situação regredida. Como freiando-os. Se pararmos para pensar, no fundo, estão negando que eles crescem. Querem manter o bebê vivo o maior tempo possível.

Será que estas mães estão preparando seus pequenos para a vida? Preparar para a vida não é carregar no colo, mas ensinar a andar. Como diz o ditado, não é dar o peixe, mas ensinar a pescar. Em um filme sobre a vida de Ray Charles, uma cena muito tocante é quando ele, criança já cego (ele nasceu com visão normal e perdeu-a na infância), entra em casa e chama por sua mãe para ajudá-lo. Esta, no canto, fica escondida e não responde. Faz isso sofrendo. Depois lhe explica que ele precisa aprender a ser cego e fazer as coisas por si próprio pois estará sozinho muitas vezes, especialmente depois que ela morrer. Que sábio. Em tempo, claro que antes disso,  ela já havia ensinado muitas coisas, não o deixou sozinho aquém de seus limites. Não é fácil, com certeza, que mãe quer ver seu filho sofrer? Mas necessário, infelizmente. Os filhos devem ser preparados para a vida e a vida não é bondosa. Cada um tem que se virar.

Crianças dependentes, super protegidas, que recebem tudo de mão beijada, muito freqüentemente, crescem adultos sem ambição, sem garra, sem capacidade de lutar por suas conquistas. Isso não é novidade. Muitas vezes a culpa não é deles, mas da forma como foram criados, aprendendo que tudo vêm a eles. Como então na vida adulta sobreviverão, dado que a vida não proporciona tudo? Claro, isso é inconsciente, não é de forma pensada. Nenhum rapaz fica pensando: Nossa! A vida foi feita para me dar tudo e portanto é só esperar. Mas eles foram educados assim; a mensagem que sempre receberam é essa, nada lhe faltará porque (nós pais) provemos sempre. Claro que nenhum pai ou mãe faz isso de propósito também. Pais sempre querem o melhor para os filhos. Mas esse melhor muitas vezes é realizado de uma forma que não os prepara para a vida, e isso deve ser colocado em questão.

Educar é difícil, desafiante, nos coloca em posições complicadas.  Já escrevi sobre a “A difícil e fundamental arte de dizer: não!”, que é necessário na educação dos filhos. Nesse caso, acrescento, é dizer não para um tempo que já passou. Para uma fase em que a criança já não precisa usar fraldas, que já não precisa só tomar papinha, usar chupeta. Ela está crescendo! Não podemos impedir isso. O que está em nosso alcance é tornar esse processo mais tranqüilo, ou mais difícil e doloroso para todos os envolvidos, ao não permitir que nossos filhos se desenvolvam e ganhem maturidade e autonomia na hora certa. Esse momento chegará, é inevitável. É melhor termos filhos preparados do que dependentes, que sofrerão com isso e não serão capazes de enfrentar a vida, seus momentos, seus desafios.

Crescer, várias teorias do desenvolvimento infantil (Piaget, Erik Erikson, Vygotsky…) defendem, requer desafios.  Se esses não são colocados na hora certa aparecerão em algum momento, claro, mas “atrasados”, comprometendo o “desenvolvimento padrão”, retardando todo um aprendizado, um crescimento emocional. Talvez se mudarmos a perspectiva de pensamento, para ao invés de encararmos como sofrimento, mas como descoberta todo esse processo, haja uma mudança de paradigma. Portanto, por mais duro que seja, vamos deixar os filhos crescerem, não passando múltiplas mensagens, duplas informações: Você é grande para ir para a escola, mas ainda bebê para tomar mamadeira. Não gerar essa confusão para a criança, que acaba, claro, por não querer desapegar daquilo que lhe é importante, significativo e gostoso, mantendo hábitos que não condizem mais com seu desenvolvimento. Cabe aos adultos, responsáveis, pensar sobre isso e tomar as decisões na condução de sua criação.

 

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Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal (CRM-SP: 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo , com Especialização na Universidade de São Paulo (USP) e Pós Graduação em Gestão na UNIFESP. Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás e David.

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