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Desenvolvimento cerebral na primeira infância, saúde e bem estar
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Desenvolvimento cerebral na primeira infância, saúde e bem estar

Desenvolvimento cerebral na primeira infância, saúde e bem estar

01/03/2017
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A doutora Marcilia Lima Martyn é neurologista infantil, especializada em epilepsia e responsável pelo setor de Eletroencefalograma do Hospital Infantil Sabará. Tal como fiz quanto à aula do Professor Daniel, já publicada neste blog, apresento aqui uma versão escrita da aula da Doutora Marcília no Curso “Impacto sobre o desenvolvimento da Primeira Infância na aprendizagem”, que tive o gosto de participar.

Todas as aulas deste curso podem ser vistas em http://ead.ensinosabara.org.br/. Como não tenho formação em neurociências e temendo, por isso, ser incorreto quanto ao que ela nos ensinou em brilhante exposição oral, produzi um texto o mais próximo possível ao que ela nos disse. Espero, assim, não ter prejudicado o aproveitamento suplementar da aula, para os que gostam de retomar uma apresentação oral em sua versão escrita. Passemos, então, à sua exposição.

Período embrionário. O desenvolvimento do cérebro é fundamental para a saúde do indivíduo. Seu inicio é na fecundação, nosso big bang individual. A partir dela há muitas reações químicas trazidas pela bagagem genética, que vão determinar divisões celulares e replicações de células. Para compreendermos o desenvolvimento cerebral, é importante conhecermos um pouco de embriologia: na segunda semana tem-se a mórula, um grande maciço celular que cresce e se divide formando a blástula, que posteriormente forma a gástrula. Na terceira semana o cérebro começa a ser formado, a partir da ectoderme, que é um dos folhetos embrionários, inicia-se o processo de invaginação de sua porção anterior e dorsal para formar o tubo neural. Progressivamente ocorre o fechamento deste tubo, o processo se inicia do centro do disco neural para as extremidades A extremidade anterior do tubo neural fecha-se por volta dos 25 dias de gestação, e a posterior, caudal, por volta de 27 ou 28 dias. No final do primeiro mês, o feto, que já tem um cérebro rudimentar, começa a tomar a forma de “C”, característica do embrião, em que a porção rostral, anterior ou externa, apresenta-se mais arredondada.

Na quinta semana podemos perceber as cinco vesículas rudimentares do cérebro (telencéfalo, mesencéfalo, rombencéfalo, diencéfalo e prosencéfalo). No final da oitava, estão formadas todas as estruturas do sistema nervoso central do adulto. Ou seja, estão constituídos os arcabouços do cérebro e da coluna vertebral. O bebê já é capaz de perceber o toque, leva a mão no rosto, seu coração tem as quatro câmaras e realiza em média 180 batimentos por minuto. É um ser pronto. Por isso, no final do segundo mês termina o período embrionário.

Período fetal. O próximo período – o fetal – vai da nona semana até o nascimento, que geralmente ocorre da 38a à 40a semana de gestação. Nele, o cérebro torna-se mais volumoso. Os giros e sulcos que o caracterizam dão-se pela neurogênese. Nela, os processos ocorrem de forma paralela ou concomitante. Em outras palavras, tem-se a proliferação neuronal, em que a célula tronco do neurônio produz o neurônio promotor, o qual, por sua vez, produz o neurônio final, por meio de mitoses. O neurônio final é uma célula que não se divide mais, isto é, que uma vez formada não tem mais a capacidade de se dividir. A proliferação neuronal conclui-se por volta da 12a semana de gestação. Depois, inicia-se a migração permanente dos neurônios, que vai até o nascimento, por meio de sinalizações químicas e considerando a bagagem genética do indivíduo, constituindo a formação, por exemplo, do córtex frontal, do tálamo.

Mielinização. A mielinização faz parte do processo de desenvolvimento cerebral. A mielina é uma camada lipoprotéica que envolve e protege a condução nervosa dos axônios dos neurônios, tornando-a mais rápida e eficaz. Em um neurônio não mielinizado, a transmissão de informação neuronal é mais lenta, não possibilitando alcançar a porção terminal do axônio. No axônio mielinizado a transmissão é veloz.

Sinapses. As sinapses são outro evento fundamental ao desenvolvimento do cérebro. Elas iniciam, quando os neurônios promotores começam a migrar para suas localizações. A partir da 18a semana, as sinapses entre neurônios ocorrem em suas regiões específicas. Apesar de sempre ocorrerem, pesquisas indicam que grande número de sinapses formam-se ou se constituem até o sexto ano de vida. Até os dois ou três primeiros anos têm-se, em média, a formação de 600 a 800 sinapses por segundo. No caso dos adultos, as sinapses já existem, estão interagindo entre si, e não são mais formadas, ou são formadas em pequena quantidade.

Apoptose. A apoptose caracteriza-se pela morte programada da célula, no caso do neurônio. Durante a formação da estrutura cerebral é necessária a participação de milhares e milhares de neurônios, porém, ao longo da vida muitos deles não serão mais necessários ou não serão utilizados. Como pesquisas mostraram, neurônios, se pouco ou não usados, morrem, isto é, um cérebro pouco estimulado tem maior quantidade de morte de suas células. Esse fenômeno é designado de poda, e se aplica tanto para as sinapses quanto aos neurônios. Uma grande poda ocorre no primeiro ano de vida. Para que ela seja menos intensa é necessário que as sinapses e os neurônios sejam muito utilizados. Como promover essa utilização? 50%, em média, da formação do cérebro depende da carga genética do indivíduo, ou seja, da herança que traz de seus pais. Os outros 50% dependem de sua experiência, isto é, das trocas realizadas com as pessoas e o mundo ao longo da vida. E a influência da experiência ocorre desde a fase intrauterina. Como mencionado, no quinto mês de gestação o bebê é capaz de ouvir, e logo mais pode discernir entre doce e ácido, quando sua mãe ingere algum alimento. Então, é muito importante que, ainda durante a gestação, mãe e pai conversem com o bebê, cantem música para que ele comece a ser estimulado, para que essas sinapses comecem a funcionar ativamente.

Períodos sensíveis ou críticos ao desenvolvimento do cérebro e anormalidades. Os primeiros anos de vida e a adolescência são dois períodos especialmente importantes para a conectividade das sinapses cerebrais. Por isso, são chamados de períodos sensíveis ou críticos ao desenvolvimento do cérebro. Retomando o que ocorre na terceira semana de gestação, um evento muito importante é o fechamento do tubo neural. Como mencionado, ele vai do centro do disco neural para as extremidades. Se uma gestante tem déficit nutricional de ácido fólico não acontecerá o fechamento do tubo neural, especialmente em sua porção distal. A criança, então, vai nascer com mielomeningocele e poderá não ser capaz de andar, além de sofrer outras consequências no sistema nervoso central. A dieta da mãe interfere na terceira semana de gestação e pode interferir na vida inteira de seu filho.

Se a criança herda uma carga genética com alguma anomalia, podem ocorrer alterações cerebrais. O momento de ocorrência do evento não desejável ou negativo influi diretamente no resultado. Por exemplo, o embrião pode morrer, se a gestante no início da gravidez for exposta a uma substância teratrogênica. Se isso acontece até à oitava semana, ele pode ter graves lesões no cérebro ou em outros órgãos. Depois disso, elas são menos intensas. A qualidade da dieta da gestante, o uso de ou a exposição à substâncias tóxicas podem prejudicar o desenvolvimento da criança na fase intrauterina. Com o nascimento, bebê e mãe separam-se fisicamente, e seus períodos sensíveis dependem do que acontece com ele. Se sofre traumatismo, machuca-se, é exposto a uma substância lesiva ao cérebro, há consequências.

Na adolescência haverá outro período com intensa produção de conexões neuronais, porém elas só ocorreram se houver estímulo para isso.

Desenvolvimento normal da criança. Para isso, importam a quantidade e a qualidade da formação ou conectividade das sinapses sensoriais nos dois primeiros anos de vida, bem como as oportunidades para o desenvolvimento da linguagem e das funções cognitivas. A criança, igualmente, precisa crescer em um ambiente seguro, rico em estímulos positivos. Necessita, por exemplo, que sua mãe, pai ou avó leiam e cantem para ela, precisam do contato olho no olho. O arcabouço estrutural do cérebro está lá, mas quando não há estímulos constantes, diários, ou seja, as conexões entre os neurônios não são usadas, então as sinapses morrem. Nesta situação a criança pode não alcançar na vida adulta o potencial que dispunha originalmente.

Conclusão. A neurociência mostra com pesquisas, o que a natureza tem-nos ensinado, pela experiência. Semear, arar o campo, prover de sol, água e adubo, evitar pragas são cuidados fundamentais para que uma planta cresça e frutifique quando adulta. Se dermos importância ao desenvolvimento cerebral da criança pequena, ela deve receber – de nós – algo comparável.

Muito obrigado, Dra. Marcília, por tudo o que nos ensinou em sua aula.

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal (CRM-SP: 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo , com Especialização na Universidade de São Paulo (USP) e Pós Graduação em Gestão na UNIFESP. Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás e David.

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