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Leite ou Uma mãe boa demais
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Leite ou Uma mãe boa demais

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26/03/2014
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Outro dia, na UTI uma médica explicava: “Sabe qual o problema desta criança? Ela tem uma mãe boa demais!”. Tal como está, como diz minha avó, a frase não orna

O caso em questão era o de um bebê de quase um ano, com uma condição cardiopulmonar congênita que não podia ser alimentado com nada líquido, só papinhas. Bem, descobriu-se que a família o alimentava por conta própria. E essa decisão  colocava em risco a criança.

Por que não conseguiam substituir o leite? Qual a dificuldade?

Psicanálise

Dizem por aí que nos primeiros anos, uma mãe de primeira viagem só fala de…

(Dica: o que nos interessa e angustia nos primeiros meses sobre o bebê? Qual o tema de nossas perguntas quando encontramos o pimpolho depois de algumas horas fora de casa?)

Garanto que, pelo menos, 80% das mães de bebês até 24 meses pensam em algo que gira em torno da saúde, e mais especificamente, de tudo que entra e o que sai… Alimentação e xixi/cocô.

Assim, a saúde, o vínculo pais-bebê, a medida dos dotes femininos e maternos, o critério para criticar avós, babás e berçários passam incondicionalmente por estes elementos.

Se pensarmos na alimentação, o alimento é o símbolo mais primário e primordial de cuidado. A gente pode até falar ‘leite’, mas essa é uma palavra que se adensa, distende e contrai, transborda fervente de sensações, cheiros, emoções indistinguíveis. Deste amálgama pré-racional de intensidades afetivas, nascem pensamentos, crenças e ações posteriores – como essa que contei da UTI.

Para a criança, Freud já dizia em 1895 que “(…) o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais” (FREUD, 1895, p. 431). Essa frase aponta que dependência inicial absoluta do bebê é determinante para sua constituição subjetiva.

No caso das famílias, por outro lado, o leite tem valor quase medicinal! Para uma mãe, não dar LEITE para seu filhinho significa deixá-lo sem o básico, o mínimo, o remédio para todos os males, judiar, tirá-lo da rotina, do que gosta, do aconchego, do essencial.

O que as famílias percebem depois de muito sofrer, é que a relação afetiva primordial a que se refere Freud pode ser mantida se o bebê for alimentado com a papinha, a sonda ou a gastrostomia… Este desfecho, porém, é uma construção a ser feita entre pais, criança e equipe. Ela é dolorida e lenta. É necessário atravessar um momento de verdadeiro luto até que os novos substitutos possam deixar todos satisfeitos.

Dra. Gláucia Faria da Silva

Dra. Gláucia Faria da Silva

Psicóloga e psicanalista há mais de 30 anos, com mestrado e doutorado pelo Departamento de Psicologia Social do IP-USP. Coordenou o Serviço de Psicologia Hospitalar do Sabará Hospital Infantil de 2012 a 2021. Dedica-se diariamente a aprender a escutar os ecos da alma: no movimento, no olhar, na fala, no brincar.

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