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A Alfabetização na Primeira Infância
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A Alfabetização na Primeira Infância

A Alfabetização na Primeira Infância

08/09/2021
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Desde 1967, festeja-se a cada 08 de setembro o Dia Internacional da Alfabetização. A data foi aprovada pela UNESCO — que oferece cursos e textos sobre essa importante questão. À propósito, sobre o tema que vamos refletir —  importância da alfabetização na primeira infância —, sugiro a leitura desse artigo (clique aqui).

Discutir a importância da alfabetização na primeira infância, ou seja, à criança de 0 a 6 anos, é algo necessário, até porque controverso.

  1. Alfabetizar — um procedimento de ensino. Usualmente, alfabetização é considerada um procedimento de ensino, valorizando-se o papel do professor e os recursos didáticos que ele utiliza para isso. Ou seja, trata-se de ensinar as crianças a lerem e a escreverem no nível correspondente aos dois primeiros anos da Escola Fundamental, como algo necessário para a aprendizagem de todas as disciplinas, incluindo a língua portuguesa. É um procedimento de ensino, porque ler e escrever são competências aprendidas no contexto de uma cultura e de um ambiente que as praticam com regularidade e valorização positiva. Porque ler e escrever supõem um profissional — o professor — qualificado para ensiná-las, bem como uma instituição — a escola — organizada e gerida para tornar esses domínios possíveis para todos os alunos. Além disso, ler e escrever fazem parte da tradição textual, criada e cultivada pelos seres humanos nos últimos cinco mil anos e que, junto com a revolução agrícola, modificaram nossa cultura e recursos de relação e compreensão das coisas do mundo.
  2. Na primeira infância cultiva-se a tradição oral. À primeira vista, parece estranho dizer “alfabetizar na primeira infância”, porque estes cinco ou seis primeiros anos de nossa vida, caracterizam-se pelas possibilidades geradas pela nossa herança genética, ou seja, pelos recursos de nossa biologia, graças aos quais podemos nos relacionar “diretamente” com as coisas, utilizando os órgãos dos sentidos, motricidade e nossa capacidade de comunicar através da fala, dos gestos, das imagens e dos símbolos. Uma herança genética que não dispensa a contrapartida dos estímulos do ambiente, sem os quais a criança pequena não teria como exercitar e desenvolver seus esquemas de ação e seus esquemas simbólicos, nem, muito menos, sua relação afetiva e sócio-cultural com as pessoas com as quais interage e das quais depende para sua sobrevivência. Esse conjunto de relações equivale ao que se denomina tradição oral, ou seja, às formas de relações entre as pessoas, e das pessoas com as coisas do mundo, mediadas pelo corpo e pelos objetos na virtualidade e na realidade de suas expressões físicas e simbólicas. Hoje, denominamos essas relações de “presenciais” ou “diretas”, e que tanto tiveram suas manifestações prejudicadas pela pandemia Covid-19. Valorizar o que é próprio à tradição oral é importante em todas as fases da vida, mas sobretudo nos primeiros anos, pois a criança pequena não tem recursos físicos, neurológicos, cognitivos, sociais e culturais suficientes para interagir, compreender e gerir o uso – ou o abuso – de sistemas mais complexos, como são os relativos às tradições textuais e digitais.

Compreendo, pela razão acima indicada, a importância dada, na educação infantil, pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aos processos de desenvolvimento e aprendizagem da criança. Ou seja, a função desta escola é otimizar campos de experiência e direitos de aprendizagem da criança, o que  requer formação teórica e prática sofisticadas e diferenciadas em três etapas (crianças de 0 à 1a6m; de 1a7m à 3a11m; e dos 4a à 5a11m).

  1. A criança pequena do século XXI convive com tradições orais, textuais e digitais. O problema de se restringir à tradição oral, nos termos comentados no ítem anterior, é que a criança pequena do século XXI convive no seu dia a dia, indissociavelmente, com expressões próprias às tradições orais, textuais e digitais. Por mais que isso, infelizmente, esteja prejudicado ou minorado nas crianças filhas de famílias pobres, toda criança observa, interage e convive com pessoas lendo, escrevendo e utilizando recursos digitais (dentre eles, no mínimo, o celular). O ser humano de 15.000 anos atrás, por exemplo, não convivia com ferramentas próprias à tradição textual (livros, cadernos e impressos) ou digital (smartphones, computadores). Portanto, “não sentia falta delas”. A criança pequena deste século, observa, sofre a falta, beneficia-se ou se prejudica com os recursos dos meios textuais e digitais. Ela precisa ser “apresentada” a eles e precisa receber uma apropriada gestão, por parte dos adultos, dos usos e abusos provindos destes recursos. É neste sentido que reconhecemos a importância da alfabetização na primeira infância. Não se trata, então, de “preparar” ou “antecipar” aquilo que ela vai aprender ou utilizar na escola seguinte, mas de oferecer e gerir qualidade e quantidade de oportunidades de relações com recursos orais, textuais e digitais. Além disso, uma interação própria à tradição oral pode não ser boa para a criança pequena. Há interações “presenciais” ou “diretas” tóxicas, estressantes, abusivas, indiferentes, permissivas, que têm pouco valor de aprendizagem ou desenvolvimento. O mesmo vale para os textos (há livros e conteúdos escritos de baixa qualidade e que prejudicam, por seu conteúdo e imagens, o leitor) e para os recursos digitais (fake news, uso aditivo). O que a criança pequena do século XXI necessita, porque tem direito ao seu desenvolvimento e aprendizagem, é de interações qualificadas e bem dosadas com recursos próprios a tais tradições. Trata-se, por isso, de se saber diferenciá-las e integrá-las visando ao melhor para a criança pequena.
  2. Considerações finais. Nos itens anteriores apresentamos ideias controversas sobre o sim e o não relativos à alfabetização da criança pequena. Sim, porque ela pertence a uma cultura que hoje se realiza pelas possibilidades oferecidas pelos recursos orais, textuais e digitais. A criança do século XXI é diferente da criança dos séculos anteriores. Mas, esse sim precisa ser qualifificado e bem dosado, pois os primeiros seis anos de vida, pela limitação dos processos de desenvolvimento e aprendizagem da criança, requerem um favorecimento da tradição oral. Não, porque valorizar a alfabetização na primeira infância, mesmo neste século, não implica em antecipar aspectos das tecnologias intelectuais próprias às tradições textuais e digitais, mas de qualificar e quantificar experiências relativas a tais tradições nos termos e possibilidades assimiláveis por uma criança pequena. Só para dar um exemplo: um livro para quem tem menos de dois ou três anos é um brinquedo, algo para ver, bater, rabiscar, rasgar, etc., ou seja, algo para ser explorado e conhecido como um objeto lúdico, a ser “curtido” pelo prazer funcional, pelo faz de conta, pelo sonhar, imaginar ou sentir. Daí a importância de um adulto ler e contar histórias para ela, tal que, pouco a pouco, ela vá descobrindo os outros tesouros que podem estar guardados em um livro. O mesmo vale para o celular da mamãe ou do papai, que tanto tempo lhes consome e que tantas coisas lhes permitem fazer, hoje, e que permitirão a ela fazer, amanhã.
Lino de Macedo

Lino de Macedo

Professor Emérito do Instituto de Psicologia (USP), assessor pedagógico do Instituto PENSI, integrante da Cátedra de Educação Básica do IEA (USP), membro da Academia Paulista de Psicologia e do Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância.

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