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O adulto observador: a opção pelo silêncio
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O adulto observador: a opção pelo silêncio

O adulto observador: a opção pelo silêncio

17/02/2016
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Escrever nem uma coisa 
Nem outra –
A fim de dizer todas –
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar –
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

Manoel de Barros

Quinta-feira da semana passada uma das crianças chegou de pijama, como gosta de se vestir nos dias em que vai à Ubá. O calor estava derretendo tudo. O pijama? Calça comprida e mangas compridas. Costumamos dar o tempo dela sentir o calor e sozinha sentir a necessidade de tirar o traje de dormir, mas nesse dia a temperatura já estava insuportável e após alguns minutos sugeri que tirasse a blusa. Ajudei-a pois era uma roupa mais justa e pedi que guardasse em sua mochila, mochila esta que estava no cabideiro, a uns seis metros de onde estávamos e sem visão para o local onde ela estava brincando.

Optei por não acompanhá-la, apenas observá-la à distância, para ver se corria tudo bem, e eis o que se passou: a primeira tentativa foi abrir a mochila para guardar, mas com ela pendurada ficou difícil de abrir o zíper, desistência. Logo depois tentou colocar a blusa por cima da mochila, apoiada no cabide. Nada, blusa no chão. Quase desertando sua missão, tentou vestir a blusa mais uma vez, desistiu mais uma vez. Por último, ela olhou bem para a mochila, tirou-a do cabide, abriu o zíper, guardou seu pijama calorento e correu de volta para o gramado, onde a aguardava uma bacia refrescante cheia de água, na qual essa criança passou a tarde, tranquila.

Esse acontecimento fez-me pensar sobre o tempo que disponibilizamos às crianças para que elas cresçam. Além disso, sobre como o silêncio e a paciência do adulto muitas vezes educam mais do que as falas. Pensei em como muitas outras vezes, nesses vários anos trabalhando com crianças, não tive consciência da importância desse tempo, e logo intervi, dei sugestões, ajudei. Ou pensei que ajudava.

Nesse dia essa criança não viu que eu a via. E por isso tentou (e conseguiu!) sozinha resolver sua situação: guardar uma blusa na mochila. Parece simples, e por isso nós adultos muitas vezes não seguramos nossa ansiedade e oferecemos logo a solução. Porém, foi um aprendizado importante para aquela criança naquele dia, construir sua própria solução, o que não teria acontecido se um adulto apressado e ansioso não conseguisse controlar seus anseios e logo fosse “ajudar”.

Sim, sabemos, às vezes é hora de ir embora, às vezes a comida vai esfriar, às vezes a aula vai começar, às vezes não há esse tempo. Mas muitas outras vezes há, e penso que precisamos todos despertar essa consciência: dar tempo às crianças para se vestirem, para comerem, para organizarem os brinquedos, para ficarem olhando uma minhoca. Tempo real. E junto com isso, dar-nos tempo de controlar os impulsos e somente observar, no silêncio.

Lilia Standerski

Lilia Standerski

Lilia Standerski é formada em Pedagogia pela Universidade de São Paulo. Trabalhou muitos anos como professora de Educação Infantil e cursou Pós-Graduação em Educação Lúdica no ISE Vera Cruz. Em agosto de 2015 abriu, junto com uma colega, a Casa Ubá ( www.casauba.com.br), um lugar que desenvolve tempo e espaço para as crianças ampliarem a capacidade de compreender a si mesmas e aos outros por meio de brincadeiras e investigações que surgem nos encontros.

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mensagem enviada

  • Rosa Iavelberg disse:

    Bacana Lilia

  • Lilian Zanetta disse:

    Maravilhoso;)

  • Janecy santana silva disse:

    Realmente o adulto não dar este tempo a criança de construir suas soluções,logo interfere impedindo o crescimento e o desenvolvimento das suas potências e habilidades

  • Vládia Freire disse:

    Pensamento perfeito! Está difícil o adulto parar, principalmente, para contemplar o que está a sua frente, como o desenvolvimento de uma criança. O professor sensível, atento às necessidades das crianças, sabe que a observação é um ponto chave para desenvolver atividades adequadas e próprias para desafiar as crianças a partir do nível em que estão e isso, para mim, é em tudo, em qualquer nível do aprendizado. Parabéns pela experiência e obrigado por compartilhar! Vládia Freire, pedagoga e psicopedagoga, 35 anos, PB.

  • Lara Queiroz disse:

    Belíssimo depoimento de quem percebe a importância e poesia contida no respeito de, “conceder” ao outro, seu próprio tempo.
    Parabéns por sua generosidade !!!
    Gratidão Lilia !!!
    Um abraço demorado (e com tempo…rs)
    Lara Queiroz
    Quintal Infâncias

  • Cyntia disse:

    Oá! É isso que nos falta desenvolver…. respeito a este tempo e espaço para se crescer pleno. Obrigada por dar voz consciente a este fenômeno necessário.

  • Edna da SILVA costa disse:

    Lilia Boa Tarde
    Parabenizo pelo seu artigo que favorece refletir sobre o tempo da criança. Eu sou coordenadora pedagógica de creches no litoral de São Paulo e o tempo é um tema incansável que estamos discutindo com as nossas equipes, pois acreditamos que o tempo da criança é a infância e não é o tempo do adulto. Estamos em processo de estudo para possibilitar mudanças na fluidez deste tempo que deve ser respeitado.

  • Isadora Freire disse:

    Também senti isso na época em que trabalhei em uma escola infantil. O tempo das crianças é diferente. E muitas vezes elas reproduzem nossa ansiedade de fazer o melhor e o mais rápido. Além também da vontade de agradar o outro. Ser criança nunca foi fácil. O adulto muitas vezes facita, mas na verdade está dificultando algo que pode acontecer no futuro e que nem sempre terá um outro adulto para ajudar. Complexo.

  • Fabiane Adiers disse:

    perfeito!! É assim que se faz a Educação Infantil!

  • Rosi disse:

    Vivemos com esta pressa, e vamos introduzindo as crianças neste mundo corrido. Também já passei por esta experiência com crianças de 18 meses. Só olhando . Quem aprendeu? Eu.

  • Andréa disse:

    Concordo com o que Lilia observou. A crianç a, assim, pode ter mais liberdade e criar, sentir sr capaz.
    Se tivermos mais delicadeza para cuidar das crianças, cooperaremos para um mundo melhor.
    Gratidão.
    Andréa.
    Psicóloga

  • Gabriela Aranha disse:

    Quanta beleza em um gesto tão simples! Aprendi aos poucos a ouvir mais e observar. Tenho me permito aprender muito com as crianças e quanto há para saber ainda… Ótimo texto! Em um mundo tão dinâmico o ambiente que oferecemos às crianças beira a insanidade!

  • Vicente Paulo disse:

    Você trabalha com hotmart? Promove produtos digitais?
    Então eu quero convidar você para ser um Sniper.
    Para saber mais sobre oque é ser um Afiliado Sniper e o que você vai ganhar com isso, o endereço esta linkado ai no meu nome.
    Abraço.

  • Marlete disse:

    Adorei sua contribuição…. Com seu relato… O exercício do silêncio …da escuta …e a observação são imprensindiveis para compreendermos o processos de aprendizagens e o desenvolvimento de nossas crianças….

  • Laine disse:

    Excelente reflexão, belo texto e o mais importante, a Casa Ubá e suas profissionais praticam o respeito e a valorização da criança. Conheço o espaço e minha filha sempre pede pra voltar.

  • Luiz Ricardo disse:

    Confesso: sou um adulto ansioso, sempre estou com pressa e em várias dessas ocasiões eu poderia ter esperado que minha filha resolvesse sua situação. Sempre que venço a ansiedade eu consigo dar esse tempo e o resultado é sempre muito bom. Obrigado pelo texto.

  • Lindalva Souza disse:

    Lilia, gostei muito do seu relato. É sensível e nos ajuda a perceber o quanto segurar a ansiedade adulta é importante. Segurar a ansiedade nos permite ver. Obrigada por compartilhar. Abraço. Lindalva Souza.

  • Ronaldo Barata disse:

    Eu concordo, principalmente porque a criança aprende a conviver e viver com suas derrotas, suas experiencias o levam a se torna independente sem sofrer…. Mas, como você fala no texto, somos escravos do tempo, do trânsito, das intempéries. E mas temos, como país, a desenvolver na criança o sendo de responsabilidade em cumprir horário, até para respeitar os outros. É uma é fácil. Mas faz parte de ser pai e ou mãe, procurar conciliar tudo de forma a criar uma ser que cresça para ser feliz.

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