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Precisamos falar sobre tiroteios em escolas
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Precisamos falar sobre tiroteios em escolas

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07/12/2022
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O título deste artigo parafraseia o livro “Precisamos falar sobre Kevin” de Lionel Shriver, onde dois pais trocam cartas sobre seu filho, um jovem adolescente de 15 anos, que cometeu uma chacina em sua escola.

No final de novembro, um adolescente de 16 anos entrou armado em duas escolas de Aracruz, no interior do Espírito Santo. Ele feriu dez pessoas e matou outras quatro, entre elas uma garota de 12 anos. O atirador é filho de um policial militar e a arma apreendida é de uso do próprio pai. O menino usava uma suástica (símbolo do nazismo) no braço, além de uniforme de camuflagem.

Em 20 anos, houve 12 chacinas em escolas no Brasil, com quase 40 mortes, isso sem falar no impacto emocional de quem vivenciou essas cenas, presencialmente ou nas imagens amplamente divulgadas pelas mídias. Estamos longe do que ocorre nos Estados Unidos e em alguns outros países, mas creio que devemos falar sobre esse assunto. Para relembrar esses casos anteriores, faço aqui uma lista.

Em outubro, já havia ocorrido outra chacina semelhante na cidade de Sobral, no Ceará, onde um rapaz de 15 anos atingiu três pessoas. A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Estado disse que a arma utilizada no crime estava registrada em nome de um CAC (Colecionador, Atirador e Caçador). O adolescente teria contado à polícia que sofria bullying na escola e, devido a isso, teria premeditado o ataque.

Em setembro de 2022, um adolescente de 14 anos com um revólver invadiu uma escola, atirou contra estudantes e matou uma aluna de 19 anos que era cadeirante, na cidade de Barreiras, na Bahia. O autor dos disparos também estudava no local. Antes do ataque, o adolescente escreveu em sua rede social: “Irá acontecer daqui quatro horas e eu estou bem de boa. Estou tão calmo, nem parece que irei aparecer em todos os jornais”.

Em maio do ano passado, no Rio de Janeiro, três adolescentes foram esfaqueados em uma escola municipal na Ilha do Governador. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, um menino e duas meninas com idades entre 13 e 14 anos tiveram ferimentos leves.

Nesse mesmo mês, em Santa Catarina, um adolescente de 18 anos matou cinco pessoas e feriu outras duas após invadir uma escola infantil no município de Saudades, a 67 km de Chapecó. O jovem teria entrado com uma arma semelhante a um facão, invadido uma classe e golpeado professores e alunos. Em seguida, de acordo com os relatos, ele cortou o próprio pescoço e se feriu no abdômen e no tórax.

Em 2019, ocorreram mais dois episódios: um em Minas Gerais. com um aluno de 17 anos com uma garrucha, e outro em Suzano, na região metropolitana de São Paulo. quando dois adolescentes mataram oito pessoas – entre alunos e professores – antes de se suicidarem na escola.

Ainda há relatos de um caso em 2017, no Paraná, e o pior deles em 2011, em Realengo, no Rio de janeiro, ocasião em que ocorreu um massacre, com a morte de 12 estudantes. A tragédia chocou o país e marcou para sempre a vida de dezenas de crianças: um rapaz de 23 anos abriu fogo contra alunos de uma escola municipal, onde também estudou, e se matou em seguida.

Em outubro, no evento anual da Academia Americana de Pediatria, houve o depoimento do Dr. Roy A. Guerrero, pediatra em Uvalde, no Texas, onde ocorreu uma chacina desse tipo. Foi necessária essa tragédia, disse ele, para perceber como os pediatras estão na linha de frente do que afeta os pais e seus filhos.

“Agora, o lema da AAP é a saúde de todas as crianças, né? Esse atirador, alguns meses antes, era uma criança… E não estou tentando defender ou desculpar nada do que o atirador fez naquele dia. Mas houve uma falha sistemática em nossa comunidade, em nossas escolas e, como profissionais médicos (nós), possivelmente poderíamos ter evitado esse desastre. Por que ninguém relatou que esse garoto estava cortando o rosto na escola… que ele estava colocando gatos em sacos de lixo e batendo neles com tacos de beisebol? Mais uma vez, estamos na vanguarda e é nosso trabalho fazer essas perguntas, por mais desconfortáveis ​​que possam ser.”

Ele também implorou aos pediatras que usassem suas vozes para pressionar pela segurança das armas, para controle das vendas e restrição ao uso. Isso está ocorrendo pelos números assustadores que foram mostrados no evento e que replico aqui: entre 2015 e 2020, houve pelo menos 2.070 tiros não intencionais em crianças, que resultaram em 765 mortes e 1.366 ferimentos não fatais por arma de fogo nos EUA. Somente em 2020, pelo menos 125 bebês e crianças de 5 anos ou menos atiraram em si mesmas ou em outra pessoa. A pandemia da covid-19 também não ajudou. De março a dezembro de 2020, as mortes não intencionais de crianças aumentaram mais de 30% em comparação ao mesmo período de 2019.

No Brasil, no atual governo, houve um afrouxamento da regulação da venda de armas para colecionadores, atiradores esportivos e caçadores, resultando em um aumento significativo de armas na mão da população civil. Muitas vezes, pessoas sem conhecimento no manejo compram armas potentes, e elas acabam caindo nas mãos de bandidos, ou acabam ferindo ou matando outras pessoas.

O número de licenças para armas de fogo subiu 473,6% de 2018 a 2022, segundo dados do Anuário de Segurança Pública divulgado em junho. No período, o número de registros subiu de 117.467 para 673.818 até 1° de junho deste ano. Antes do governo Bolsonaro, o T4, um fuzil de calibre restrito, estava destinado às polícias e Forças Armadas. Para os criminosos, na época, havia duas alternativas: corromper policiais ou buscar no mercado internacional e traficar para o Brasil. Os dois caminhos são custosos e o preço de um fuzil novo chegava a até R$ 60 mil no mercado ilegal. Hoje, com as mudanças, é possível comprar um T4 por R$ 16 mil e receber em casa. Para um criminoso, é só usar documentos falsos ou comprar em nome de laranjas. As mudanças feitas pelo governo na legislação sobre armas, claramente sem nenhuma avaliação de impacto, beneficiam diretamente o crime organizado. Segundo a Taurus, até o início desse ano, foram vendidos 60 mil deles no Brasil.

Como está no título desse artigo, precisamos falar sobre esse assunto antes que entrar nas escolas e atirar a esmo em professores e alunos esteja banalizado demais.

Fontes:

Saiba mais:

https://institutopensi.org.br/esse-e-o-resultado-da-violencia-contra-as-criancas-nos-ultimos-5-anos-no-brasil-35-mil-criancas-assassinadas-e-180-mil-estupradas-o-que-voce-pensa-disso/

https://institutopensi.org.br/inspire-sete-estrategias-para-acabar-com-a-violencia-contra-as-criancas/

https://institutopensi.org.br/fundo-para-acabar-com-a-violencia-contra-as-criancas/

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal (CRM-SP: 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo , com Especialização na Universidade de São Paulo (USP) e Pós Graduação em Gestão na UNIFESP. Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás e David.

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