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GONZALO VECINA – Em defesa das vacinas e da puericultura
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GONZALO VECINA – Em defesa das vacinas e da puericultura

GONZALO VECINA – Em defesa das vacinas e da puericultura

06/09/2022
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O médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto sustenta que o modelo de vacinação em massa adotado no Brasil poderia evoluir se fosse substituído por um sistema de prevenção que privilegia a atenção básica à saúde infantil

 

Convidado para moderar uma mesa no 6º Congresso Internacional Sabará-PENSI de Saúde Infantil que aborda a Jornada das Vacinas, o dr. Gonzalo Vecina Neto é figura ilustre nessa área — foi fundador e presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de 1999 até 2003 — e por isso mesmo, durante a pandemia, ficou conhecido do grande público por explicar na TV sobre as vacinas contra covid-19, no início da vacinação. 

Em entrevista ao Notícias da Saúde Infantil, ele detalha as análises mais recentes para entender o comportamento da população diante da oferta de vacinas. “Os negacionistas não comparecem mesmo”, sentencia, ao alertar que faltou e está faltando convocação para a vacinação. Também critica o modelo de imunização brasileiro, defendendo que, em vez das campanhas para milhões, as vacinas fossem administradas quando as crianças vão receber os cuidados primários, o acompanhamento médico previsto pela puericultura. O médico ressalta ainda a importância de associar institutos de pesquisa aos hospitais de assistência à saúde infantil. Ao comentar políticas públicas, o dr. Vecina, que foi um dos idealizadores do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1988, reforça que a interdisciplinaridade e a intersetorialidade são os únicos caminhos para ampliar a proteção à criança e resolver problemas como a violência. 

 

“O Brasil protege sua população organizando a vacinação em campanhas, e não por meio de um processo sistemático de atenção à saúde. Não fazemos puericultura por termos uma população muito pobre e a estrutura da atenção básica não é suficiente para garantir a oferta de serviços para a demanda.”

 

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Notícias da Saúde Infantil — Por que as pessoas precisam conhecer o potencial de proteção das vacinas e como desmistificar as versões falsas sobre seus efeitos colaterais?

Gonzalo Vecina Neto — Temos discutido e estudado que atualmente existem três públicos: o que é negacionista e que não acredita, não quer se vacinar e não tem muita explicação sobre o motivo, é como uma fé. Em torno de 1% a 1,5% está nessa categoria. Aqui no Brasil, 20% da população precisa de mais informação para tomar uma decisão e, para estes, uma informação única, mesmo vinda de fonte reconhecida, não é suficiente. Querem saber mais e ter melhores explicações sobre efeitos colaterais, qual sua frequência, qual a providência a ser tomada se eles acontecerem. O restante da população aceita a orientação do ministério ou de autoridades. Então esses três públicos precisam de diferentes graus de informação. Um dos principais problemas que nós estamos tendo hoje no Brasil é a falta de convocação. Na pandemia de covid-19, quando nós fizemos as experiências nos municípios, em Serrana vacinamos a população adulta com a Coronavac e em Botucatu vacinamos com a AstraZeneca, a presença foi de 97% a 98% dos habitantes nas duas cidades, então dois públicos se manifestaram e os negacionistas não compareceram mesmo. Acho que a gente não deve se surpreender tanto com essa história, apenas entendê-la de maneira adequada. 

Notícias da Saúde Infantil — Por que motivo têm acontecido tantos casos de descrença em relação às vacinas? 

Gonzalo Vecina Neto — Quando olhamos para o público americano e europeu, vemos o episódio da vacina contra o sarampo causado por um médico inescrupuloso que publicou na The Lancet, uma revista científica conceituada, a qual depois divulgou uma retratação importante. [A revista médica britânica The Lancet se retratou formalmente de um estudo de 1998 que vinculava a vacina tríplice viral (contra sarampo, rubéola e caxumba) ao autismo.] Mas o estrago estava feito, pois ele alegou que a presença de um mercurial na vacina do sarampo tinha potencial de produzir pacientes autistas. Retomo o caso, pois vale lembrar que a maneira de associar verdades a mentiras não é nova. Os comunicólogos que trabalhavam para os nazistas descobriram que associar uma verdade à mentira transforma a mentira em verdade. Como o artigo sobre a vacina foi muito discutido nos Estados Unidos e na Europa, aumentou a resistência daquele público mais cauteloso e sedento de informações nessas regiões. Fora isso, existe o fato de que eu sou de uma geração que viu paraplégicos — na minha classe de medicina tinha um colega que era vítima da poliomielite, por exemplo. Mas quem tem filhos mais novos agora não conviveu com essas doenças e não presenciou a epidemia de meningite da década de 1970; então valoriza menos, é um perigo que passou, uma coisa a menos com que se preocupar. 

 

“A puericultura é um dos instrumentos fundamentais para ter uma saúde infantil melhor. Então deveríamos ter políticas públicas que a garantissem pelo menos até os cinco anos de idade”

 

Notícias da Saúde Infantil — Além de esta geração não ter visto isso, ela está mais exposta a esse mundo amplificado de informações. Isso faz diferença?  

Gonzalo Vecina Neto — Com certeza, tudo contribui para criar esse clima. Tem uma parcela negacionista, outra que quer mais informação e quem já se sente totalmente informado, mas a sensação de que isso já passou também faz parte, em especial nos países mais desenvolvidos. O Brasil protege sua população organizando a vacinação em campanhas, e não por meio de um processo sistemático de atenção à saúde. A vacinação nos europeus é uma prática comum, já é uma coisa de puericultura. Você vai levar a sua criança no primeiro ano de vida uma vez por mês ou a cada dois meses para fazer o acompanhamento do desenvolvimento pondero-estatural e nesse momento a criança é vacinada. No Brasil, nós temos esse modelo campanhista de vacinação porque nós não fazemos puericultura. E não fazemos por termos uma população muito pobre e a estrutura da atenção básica não é suficiente para garantir uma oferta de serviço para a demanda. Nós chamamos a população e fazemos a vacinação, organizamos a aplicação de 12 milhões de doses de vacina em um dia. Dá resultado? Dá resultado. É o melhor jeito de fazer? Não é o melhor jeito de fazer. Então o nosso modelo ainda é campanhista e a vacinação não é um ato de higiene sanitária natural. Esse conjunto de fatores ajuda a gente a entender melhor por que as pessoas se vacinam ou não se vacinam, mesmo quando a vacina é uma coisa tão boa.

Notícias da Saúde Infantil — Por que é importante investir na saúde na infância e na prevenção precoce e como isso pode ser tratado na política pública? 

Gonzalo Vecina Neto — A questão mais importante para a política pública é realizar uma atividade sistemática de atenção à saúde, que é a puericultura. A puericultura é um dos instrumentos fundamentais para ter uma saúde infantil melhor. Então deveríamos ter políticas públicas que a garantissem pelo menos até os cinco anos de idade — esse é o período em que a criança está desenvolvendo as suas capacidades de viver no mundo. Países europeus como Alemanha, Itália, França, Portugal e Espanha têm um sistema de atenção à saúde de base universal, voltado para a atenção contínua, e a puericultura faz parte dela. Esse modelo reconhece a puericultura como vital para a atenção integral à saúde, ou seja, a que faz prevenção e cura. Em “mediquês”, é na prevenção primária que se situa a puericultura. 

 

“Ter uma instituição de pesquisa como o PENSI por trás é privilégio do Sabará Hospital Infantil. Acho importante não só pelos resultados em si que essas pesquisas trazem, mas pelo exemplo que dão para a sociedade. É a valorização do fato de que a pesquisa fica melhor quando associada à assistência e ao ensino também.”

 

Notícias da Saúde Infantil — O senhor acha que a puericultura precisa ser mais difundida na sociedade brasileira ou não adianta difundir se não há política pública que garanta essa oferta?

Gonzalo Vecina Neto — Temos duas questões: uma são aquelas pessoas que não são pais, não têm contato com o assunto e não demandam essa oferta. E também há pais que não conhecem a importância da puericultura. Para os pais da atualidade, que trabalham, também é atrapalhado, pois temos os seis meses de licença-maternidade, mas é escassa a oferta de serviço, principalmente para 78% da população, que não tem plano de saúde. Não é tão simples, pois falta informação sobre o que é puericultura até para os profissionais de saúde, na minha impressão. É lógico que o médico ou a enfermeira sabem o que é puericultura, mas eles não sabem o que é uma política pública que entrega puericultura; então essa questão precisa ser posta em discussão. Elogiamos demais o PNI (Programa Nacional de Imunizações), mas talvez a gente não devesse se gabar, porque não é a maneira mais adequada de entregar a imunização. A mais adequada seria uma forma sistemática de imunizar durante a atenção à criança oferecida pela puericultura. 

Notícias da Saúde Infantil — O senhor reforça a ideia de que é preciso tratar a saúde pública como uma abordagem interdisciplinar. Comente, por favor.

Gonzalo Vecina Neto — Não é possível enfrentar a questão da violência contra a criança sem pensar na intersetorialidade, interdisciplinaridade; não tem como resolver isso sem mexer com Justiça, com segurança pública, com assistência social ou educação. Para enfrentar uma das violências mais terríveis que existem contra a criança que é a gravidez na adolescência, tem que pensar obrigatoriamente de modo intersetorial e trans e interdisciplinar. Essa é uma questão bem mais complexa; a violência é uma questão mascarada na nossa sociedade e precisa ser exposta, principalmente porque 70% ou 80% da violência acontece dentro da própria família. Muito da violência é fruto da desigualdade. Há pais que não têm acesso ao conhecimento e a informações para resolver coisas e problemas que ser pai lhes traz.

Notícias da Saúde Infantil — Qual é a importância e quais são os desafios de fazer mais pesquisas em saúde infantil?

Gonzalo Vecina Neto — Nos últimos 20 ou 30 anos aumentou muito o número de pesquisas com crianças, sempre muito cercadas de preocupação com as questões éticas envolvidas, mas sem dúvida eu acho que há instituições que têm alto padrão tecnológico e ético, como é o caso do Instituto PENSI. É fundamental em uma sociedade como a brasileira, e nós temos poucos estabelecimentos no Brasil com essa capacidade e condição. Podemos falar do IMIP, de Pernambuco, do Pequeno Príncipe, no Paraná, aqui em São Paulo temos bons hospitais pediátricos, inclusive no SUS, como o Cândido Fontoura, o Darcy Vargas e o Hospital Municipal Menino Jesus, mas como são estabelecimentos públicos, embora de excelência, eles não têm um braço de pesquisa relevante. Ter uma instituição de pesquisa como o PENSI por trás é privilégio do Sabará Hospital Infantil. Acho importante não só pelos resultados em si que essas pesquisas trazem, mas pelo exemplo que dão para a sociedade. É a valorização do fato de que a pesquisa fica melhor quando associada à assistência e ao ensino também.

Notícias da Saúde Infantil — Vamos falar de medicina 4.0. Como o senhor vê o que vem por aí?

Gonzalo Vecina Neto — As transformações que a tecnologia digital está trazendo para a medicina são fantásticas porque ela está aumentando a nossa capacidade de cálculo e de processamento de dados. Isso evolui em todas as áreas do conhecimento. Na biotecnologia, por exemplo, aumenta a capacidade de produzir moléculas cada vez mais semelhantes à biologia; o acesso à nanotecnologia permite que eu tenha uma nova forma de abordar a fisiologia através das nanopartículas. Temos as ciências da integração homem-máquina, com o implante coclear, e já se começa a falar em implante oftálmico, em substituição de órgãos, em xenotransplantes, quer dizer, a medicina 4.0 está presente hoje na nossa vida. Ela é uma medicina praticamente individualizada. E por isso vai matar a coletiva? Pelo contrário, vai tornar a medicina coletiva mais complexa. Mas é preciso ter respostas mais adequadas para essa nova onda, a exemplo de um medicamento como o Zolgensma, que cura uma doença antes incurável, com 300 casos por ano no Brasil. [Zolgensma é usado para tratar crianças com atrofia muscular espinhal (AME), conhecido como o medicamento mais caro do mundo.] Só que cada tratamento custa milhões de reais, e eu vou deixar essas crianças morrerem ou curá-las? Há um custo que me impedirá de atender milhares de outras crianças. Isso coloca uma falsa questão para a gente, que é a da escolha. Não existe essa escolha — as duas coisas precisam ser feitas. E a sociedade precisa dar suporte para ambas. 

 

Por Rede Galápagos

 

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