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Precisamos voltar a falar sobre os ataques às escolas
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Precisamos voltar a falar sobre os ataques às escolas

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11/04/2023
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O título deste artigo parafraseia o livro “Precisamos falar sobre Kevin” de Lionel Shriver – onde os pais trocam cartas sobre seu filho, um jovem adolescente de 15 anos que cometeu uma chacina em sua escola – e a um artigo que escrevi para esse blog em novembro de 2022.

Naquele mês, um adolescente de 16 anos entrou armado em duas escolas de Aracruz, no interior do Espírito Santo. Ele feriu dez pessoas e matou outras quatro, entre elas uma garota de 12 anos. O atirador é filho de um policial militar e a arma apreendida é de uso do próprio pai. O menino usava uma suástica (símbolo do nazismo) no braço, além de uniforme de camuflagem.

Agora, um garoto de 13 anos, em São Paulo, matou uma professora e feriu quatro pessoas em um ataque a faca e, em Blumenau, um rapaz de 25 anos matou quatro crianças entre 4 e 7 anos com uma machadinha.

Em 20 anos, houve 12 chacinas em escolas no Brasil, com quase 40 mortes, isso sem falar no impacto emocional de quem vivenciou essas cenas, presencialmente ou nas imagens amplamente divulgadas pelas mídias. Estamos longe do que ocorre nos Estados Unidos e em alguns outros países, mas creio que devemos falar sobre esse assunto. Para relembrar esses casos anteriores, faço aqui uma lista.

Em outubro de 2022, já havia ocorrido outra chacina semelhante na cidade de Sobral, no Ceará, onde um rapaz de 15 anos atingiu três pessoas. A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Estado disse que a arma utilizada no crime estava registrada em nome de um CAC (Colecionador, Atirador e Caçador). O adolescente teria contado à polícia que sofria bullying na escola e, devido a isso, teria premeditado o ataque.

Em setembro de 2022, um adolescente de 14 anos com um revólver invadiu uma escola, atirou contra estudantes e matou uma aluna de 19 anos que era cadeirante, na cidade de Barreiras, na Bahia. O autor dos disparos também estudava no local. Antes do ataque, o adolescente escreveu em sua rede social: “Irá acontecer daqui quatro horas e eu estou bem de boa. Estou tão calmo, nem parece que irei aparecer em todos os jornais”.

Em maio de 2021, no Rio de Janeiro, três adolescentes foram esfaqueados em uma escola municipal na Ilha do Governador. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, um menino e duas meninas com idades entre 13 e 14 anos tiveram ferimentos leves. Nesse mesmo mês, em Santa Catarina, um adolescente de 18 anos matou cinco pessoas e feriu outras duas após invadir uma escola infantil no município de Saudades, a 67 km de Chapecó. O jovem teria entrado com uma arma semelhante a um facão, invadido uma classe e golpeado professores e alunos. Em seguida, de acordo com os relatos, ele cortou o próprio pescoço e se feriu no abdômen e no tórax.

Em 2019, ocorreram mais dois episódios: um em Minas Gerais, com um aluno de 17 anos com uma garrucha, e outro em Suzano, na região metropolitana de São Paulo, quando dois adolescentes mataram oito pessoas – entre alunos e professores – antes de se suicidarem na escola.

Ainda há relatos de um caso em 2017, no Paraná, e o pior deles em 2011, em Realengo, no Rio de janeiro, ocasião em que ocorreu um massacre, com a morte de 12 estudantes. A tragédia chocou o país e marcou para sempre a vida de dezenas de crianças: um rapaz de 23 anos abriu fogo contra alunos de uma escola municipal, onde também estudou, e se matou em seguida.

No evento anual da Academia Americana de Pediatria, houve o depoimento do Dr. Roy A. Guerrero, pediatra em Uvalde, no Texas, onde ocorreu uma chacina desse tipo. Foi necessária essa tragédia, disse ele, para perceber como isso afeta os pais e seus filhos:

“Agora, o lema da AAP é a saúde de todas as crianças, né? Esse atirador, alguns meses antes, era uma criança… E não estou tentando defender ou desculpar nada do que o atirador fez naquele dia. Mas houve uma falha sistemática em nossa comunidade, em nossas escolas e, como profissionais médicos, possivelmente poderíamos ter evitado esse desastre. Por que ninguém relatou que esse garoto estava cortando o rosto na escola… que ele estava colocando gatos em sacos de lixo e batendo neles com tacos de beisebol? Mais uma vez, estamos na vanguarda e é nosso trabalho fazer essas perguntas, por mais desconfortáveis ​​que possam ser.”

Engana-se quem pensa que essa subcultura de ódio precisa se esconder na deep web. Seus adeptos postam livremente suas imagens cheias de armas e tiros, bem como mensagens endeusando terroristas no Twitter, Instagram, TikTok, Discord e Reddit, sem praticamente nenhum controle. Também criam e compartilham vídeos com cenas de massacres mundo afora. Quando o estudante invadiu a escola em Vitória com bombas caseiras e facas e ameaçou professores e estudantes, ele foi contido por policiais e seguranças e ninguém ficou ferido. Logo a internet se incendiou com referências ao caso. Além de seguidores lamentarem o fato de o jovem de 18 anos não ter conseguido matar ninguém, passaram a caçoar dele. Neles, encontram “mentores” que os guiarão em um caminho cada vez mais perigoso de ódio, misantropia, ideação suicida, supremacia branca, apologia ao terrorismo e ao holocausto, entre outras pragas.

No Brasil, no governo anterior, houve um afrouxamento da regulação da venda de armas para colecionadores, atiradores esportivos e caçadores, resultando em um aumento significativo de armas na mão da população civil. Muitas vezes, pessoas sem conhecimento no manejo compram armas potentes e elas acabam caindo nas mãos de bandidos, ou acabam ferindo ou matando outras pessoas. O número de licenças para armas de fogo subiu 474% de 2018 a 2022, segundo dados do Anuário de Segurança Pública. Isso parece ter sido corrigido com as medidas tomada no início desse ano.

É sabido que a divulgação desse tipo de crime leva a uma glamourização dos que fizeram ação e, em muitos países, a divulgação fica restrita à informação do fato. Por aqui, infelizmente, parte da nossa imprensa adora esses fatos sensacionalistas.

A situação do Brasil, com a pouca regulamentação das plataformas, conteúdos de extremismo violento e terrorismo circulam livremente pelas redes sociais. A falta de debate qualificado sobre o assunto é outra agravante. O tema de prevenção e combate ao extremismo violento praticamente não é estudado por aqui e, a cada ataque, programas sensacionalistas de TV passam horas mostrando imagens do atentado e do assassino, para deleite de comunidades mórbidas que se revezam na celebração das atrocidades e impulsionam mais jovens desajustados a cometerem novos ataques.

Infelizmente, são nesses momentos que surgem as ideias de diminuir a maioridade penal, aumentar as penalidades e outras medidas que não atacam ou previnem o problema. Precisamos sim estudar esse fenômeno que está ocorrendo na sociedade brasileira para se fazer um diagnóstico adequado e oferecer o tratamento correto, ao invés de criar soluções paliativas e violentas em um país que desrespeita cada dia mais sua infância e adolescência.

Como está no título desse artigo, precisamos falar sobre esse assunto antes que entrar nas escolas e atirar a esmo em professores e alunos esteja banalizado demais.

Fontes:

https://publications.aap.org/aapnews/news/22431/Uvalde-pediatrician-recounts-horror-of-school?searchresult=1?autologincheck=redirected?nfToken=00000000-0000-0000-0000-000000000000

https://soudapaz.org/

Saiba mais:

https://institutopensi.org.br/esse-e-o-resultado-da-violencia-contra-as-criancas-nos-ultimos-5-anos-no-brasil-35-mil-criancas-assassinadas-e-180-mil-estupradas-o-que-voce-pensa-disso/

https://institutopensi.org.br/inspire-sete-estrategias-para-acabar-com-a-violencia-contra-as-criancas/

https://institutopensi.org.br/fundo-para-acabar-com-a-violencia-contra-as-criancas/ https://www.estadao.com.br/cultura/luciana-garbin/true-crime-community-violencia-extremismo-e-um-perigo-que-os-pais-precisam-conhecer/

https://institutopensi.org.br/precisamos-falar-sobre-tiroteios-em-escolas/

 

Dr. José Luiz Setúbal

Dr. José Luiz Setúbal

(CRM-SP 42.740) Médico Pediatra formado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com especialização na Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduação em Gestão na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pai de Bia, Gá e Olavo. Avô de Tomás, David e Benjamim.

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